Valério Louco de Amor

Jayme Mauricio

Publicado no Jornal Última Hora em 2 de novembro de 1978

 

Louca de Amor, Pulou Para a Morte é o título da composição em vertical de Cláudio Valério Teixeira, no imenso pé direito da galeria da Escola de Belas-Artes, onde se aloja a Funarte. Antes, no Salão do dito carioca, o jovem artista agredia deliberadamente ou arquitetonicamente, nunca se sabe, naqueles domínios de seu pai. Oswaldo Teixeira.

Com uma vasta superfície tombando do teto para se desenrolar em parte sobre o chão – um homem em queda – não diria livre, porque tinha suas mãos atadas e seus olhos vendados – mostrava em três ou quatro fases o acidente que sofria. Temas e títulos, como ensina o jovem Maciel Levy, são agressões e modos de ser e de existir. A conotação pop ou pós-pop, deriva da imprensa mais verídica, mas não satiriza nem grita o drama, sem as conotações irônicas que a composição apresenta.

Desde o Recife em plástico, há uns 10 anos, a academia da identidade, então muito quente, Cláudio Valério com seu magnífico desenho, mais adequado, talvez a processo crítico hiper realista, busca a esfera do cotidiano, consciente de um momento histórico, movimento ideológico ou grupo social.

A qualidade do seu desenho porém torna inviável, hoje, uma simbiose de arte e cotidiano, de modo a implicar a arte no drama das realidades e tirar-lhe o caráter de atividade marginal, suntuária. Pois sendo o suporte papel e a imagem desenho, sem preconceitos, o jovem anda na grandiosidade das volumosas peças atuais dos americanos, talvez sonhando furar seu imenso papel para sair no afresco ou mural.

Alguns críticos mais livres, como William Rubin, notam nessa inclinação para o monumental o futuro das artes já não mais nos museus mas nas grandes empresas, o que seria um boa para reatar a velha oposição entre arte e vida ou entre obra e objeto. Desde Eisenstein e seus companheiros da geração Maiakovsky, tentam sem resultado, e não parece que venha a ser um dia alcançada, pelo menos enquanto formulada nesses termos.

É possível que não haja dogma. Mas apenas o tema dos registros jornalísticos tenha motivado o artista. Ou então a altura do teto da Funarte para uma exposição de desenho.

Às vezes, uma simples conta de somar desfaz as mais onanísticas dialéticas. Pois ao lado da mocinha, também em queda, tipos idênticos ou afins de suporte apresentam outros temas – em geral dramáticos – ou, como quer, Levy “A sociedade agressivamente competitiva” dos fuzilamentos. O mundo é de fato mau, na “convivência compulsória a que somos forçados” ou nós é que forçamos essa convivência? Há quem se defende e não aceita.

Cláudio Valério com a qualidade de seu desenho e essa temática, elevada a um grau mais trágico, no vasto leque das tragédias, acabará num tal requinte que, entre Blacke e Beardsley darei um elitista suspiro de W. Morris: “É o Fra Angélico do Satanismo …”

Mas o artista chega mais próximo do suporte e do tema como novo fator a ser incorporado à obra com um desenho impressionante, este, todo no chão, marcado pelo tamanho natural do relevo da superfície rolante de um par de pneumáticos, interrompido em sua sinistra trajetória por um homem atropelado. Às agressões da máquina, esta sim, símbolo do caos em que vivemos, Cláudio adiciona agressões afins, vindas do próprio povo ou da “multidão de indivíduos” em seu desespero, pelos desvios do desenvolvimento tecnológico, feito pelo próprio homem, senão mesmo da intimidade da relação amorosa, como a menina suicida.

Das macroestruturas às microemoções, tudo é matéria-prima para comover, para provar que o todo é precário e nada está seguro. O direito ao desejo, à evidência, à partida, está na ordem do dia. É tempo de reconhecer, parece, que a arte para muitos não passa de uma vasta eventualidade. Tudo está sempre por inventar.