O Desenho e a Grande Lição

A Lição de Claudio Valério

Walmir Ayala

Publicado no Jornal do Comércio em 22 e 23 de outubro de 1978

 

A Exposição de desenhos de Claudio Valério Teixeira, na galeria Rodrigo Mello Franco de Andrade, da Funarte, é uma prova poderosa de como a vivência e mesmo a experiência acadêmica pode resultar em importante documento de contemporaneidade. Filho e admirador de Oswaldo Teixeira, o último acadêmico respeitável da história da nossa arte, Claudio Valério revela a estilística específica daquela ótica que busca a reprodução fiel, projetando a realidade em termos de uma alegoria adocicada e pitoresca. Seu desenho é
perfeito, os macetes acadêmicos ele domina e manipula com maestria, apesar disso é um trabalho contundente, vivo, responsável e engajado o que nos oferece. Engajado na vida, na triste constatação da vítima que somos, em todos os planos da temporalidade, ou da manutenção de uma situação de indefesos cordeiros na hora do holocausto.

Claudio Valério, nesta mostra, registra uma evolução que vai dos retratos de identidade, com legenda, até os sudários, a nosso ver o ponto alto da mostra. Nos retratos fiéis, nos quais o povo é o modelo, a limitação ostensiva do enfoque povero, comunica toda a tragédia do anonimato que anemicamente se afirma, sobre dons conquistados desproporcionalmente aos vôos do progresso e da tecnologia, revelando o homem ainda na pré-história dos recursos básicos de dignos ocupantes do trono da criação. E esta é a maioria. Avança sobre isto e nos traz referências dos crimes cotidianos, das torturas e dos desmandos dos esquadrões da morte, dos suicídios e das sevícias, dos atropelamentos e das induções. Tudo com grandeza que nos reporta a Goya, aos clássicos da denúncia em todos os tempos. Cláudio Valério nos chega de forma adulta, dominando técnica e emoção, raciocinando sobre a paixão de temas tão comprometedores, e sai-se soberbamente da tarefa. Fica-nos esta exposição como uma das mais importantes do ano e, sobretudo, é oportuno meditar sobre ela, na hora da inauguração do primeiro salão nacional de arte, regido por nova lei. Seria bom que os “acadêmicos” deglutissem bem a lição de Cláudio Valério, compreendendo que este é um caminho pelo qual aproveitar suas habilidades tão mal canalizadas. Cláudio Valério nunca foi um acadêmico, sempre teve a juventude e inteligência suficientes para entender que a realidade lhe pedia um olhar mais transparente e despojado. Mas o conhecimento que apontei antes, de elenco de habilidades técnicas e mentais do academismo, este ele as possuía bastante. Em vez de enveredar por mais paisagens de luar desbragado, ou naturezas mortas com cobres polidos como espelhos, ele retratou a verdade. Esta verdade pode estar numa natureza morta ou numa paisagem, mas não com mornidão de confeiteiros antes com a fatalidade das urzes entre as rosas. Podemos ter um salão importante, resultado de uma real fusão de tendências, desde que a facção acadêmica não se encarnize sobre trincheiras mundialmente obsoletas. Peço a todos a generosidade da conciliação em favor de uma arte maior, contemporânea e realmente valiosa a partir de sua tradição sadiamente vivida a seu tempo.