Apresentação

Ao longo da década de 1970, eu me dedicava a trabalhar sobretudo com desenhos, realizando séries temáticas sobre memória, violência urbana e identidade. O Instituto de Artes Visuais da FUNARTE era então dirigido por Alcídio Mafra de Souza que, através de seu assessor Geraldo Edson de Andrade, convidou-me a realizar mostra individual na Galeria Rodrigo Melo Franco de Andrade. À época, esta galeria era programada pela Funarte, que ainda ocupava a parte correspondente à Escola de Belas Artes – então recém transferida para o campus do Fundão – do prédio que hoje abriga exclusivamente o Museu Nacional de Belas Artes.

Considerando as amplas proporções da área expositiva destinada, o convite suscitou-me a ideia de expandir os desenhos de forma a alcançar dimensões agigantadas, com trabalhos que variavam de 5 a 8 metros de altura e que, em alguns casos, prolongavam-se pelo piso. Este recurso concordava com os temas tratados – a mulher saltando para a morte, o homem atropelado na avenida, a mulher torturada, outras amarradas por cordas em uma cena assistida pelas Meninas, de Velázquez – e encorajava a atenção para uma alusão ao confronto entre a barbárie e a placidez: o realismo levado ao extremo diante da serenidade dos personagens do artista espanhol, cuja obra serviu de forte inspiração ao realismo e aos pintores modernos. A exposição foi apresentada ao público em 1978, e vinte e três desenhos de dimensões comuns somaram-se aos cinco de grande porte, numa ocupação espacial que hoje em dia poderia ser chamada de site specific.

Uma sucessão de fatalidades levou à destruição os cinco desenhos de formato excepcional, guardados no ateliê de um artista amigo que tempos depois se suicidou, e cuja família impediu o resgate das obras que, por fim, após anos, pude reencontrar arruinadas. A perda dos trabalhos da juventude causava-me um desconfortável vazio e a ansiedade de revê-los alimentou a permanente e crescente vontade de refazê-los. Há poucos anos, em conversa com o artista Artur Barrio, no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, fui por ele indagado se não voltaria a expô-los.

O convite de Mônica Xexéo, diretora do Museu Nacional de Belas Artes, para a realização de uma exposição em 2011, impulsionou energias e ânimos adormecidos em direção à exaustiva empreitada de reconstruir os desenhos. Não se trata aqui da simples tarefa de refazer os antigos trabalhos, mas de conceber novas criações, considerando-se que ainda que o tema permaneça, modelos e iluminação são outros e algumas posturas foram alteradas. Talvez o resultado atual não carregue a mesma fúria dos desenhos executados na juventude, ainda que claramente tenham ganhado em refinamento técnico e, acredito, a dramaticidade original está preservada.

A primeira exposição ocorreu durante o período da ditadura militar brasileira. Um ano antes, em 1977, um trabalho intitulado Fuzilamento, um auto-retrato vendado e sendo fuzilado, havia sido censurado no Salão Carioca, igualmente organizado pela Funarte. Na ocasião, solicitei o espaço do crítico de arte Francisco Bittencourt, no jornal Tribuna da Imprensa, e fiz um veemente protesto pelo ato de repressão. No ano seguinte, teimei no envio da mesma obra para a edição anual do mesmo Salão Carioca, oportunidade em que, além de aceita, foi premiada com menção especial do júri.

No emaranhado de insensatez e paradoxos que marcou esse nefasto período da vida brasileira, a exposição se deu numa instituição pública federal. Artistas e amigos me alertavam sobre os riscos, e, durante a montagem, para cada desenho erguido eu podia observar o espanto e o temor nos olhares de quem ali estava. No dia da inauguração, senti falta de Alcídio Mafra de Sousa que, vim a saber depois, fora chamado a Brasília para as devidas explicações. Nada além disso. A crítica especializada se manifestou sobre a mostra – bons tempos em que contávamos com a crítica de arte diária em jornais: Francisco Bittencourt, Walmir Ayala, Jayme Maurício, Geraldo Edson de Andrade e Rui Sampaio, todos aplaudiram a ousadia ali demonstrada, cabendo a Roberto Pontual, com sua contumaz ironia, dizer que “o artista grita demais para mostrar que há gritos a sua volta”. Talvez gritos altos por vozes silenciadas.

O desejo de remontar esta mostra atende a várias inquietações pessoais. Dentre as já mencionadas, seguem-se a necessidade de assegurar-me de que razão e movimentos não foram corrompidos pelo problema de saúde que tive há quase dois anos e, a par deste desafio, satisfazer a imensa curiosidade de observar as possibilidades de comunicação desta mostra com o público de hoje, trinta e três anos passados, senão pelo aspecto político, pelo impacto formal do desenho francamente realista e humano, fruto de trabalho árduo que avança além de uma simples artesania, num contexto artístico contemporâneo em que tais valores estão mais e mais desatendidos.

 

Claudio Valério Teixeira